3# BRASIL 7.1.15

     3#1 MANDATO NOVO, PROBLEMAS VELHOS
     3#2 2015 MORRO ACIMA
     3#3 CARREIRAS PROMISSORAS

3#1 MANDATO NOVO, PROBLEMAS VELHOS
Um Congresso nervoso com o petrolo, um ministrio fisiolgico e inimigos em seu prprio partido: o segundo governo de Dilma ser difcil.
ADRIANO CEOLIN

     Quando subiu pela primeira vez a rampa do Palcio do Planalto, h quatro anos, Dilma Rousseff era o retrato da empolgao. A primeira mulher eleita presidente do Brasil assumia o mais alto posto da Repblica exalando otimismo. A economia ia razoavelmente bem, embora o pas no estivesse crescendo como poderia (e deveria). A descoberta de petrleo nas camadas do pr-sal embalava as expectativas de um futuro tranquilo. A presidente, em seu discurso de posse, dava forma ao otimismo. Segundo ela, o pas vivia um dos "melhores momentos da vida nacional". Para completar, depois de oito anos de governo petista manchado pela ndoa da corrupo e pela indelvel marca do mensalo, Dilma encarnava a chefe de Estado que poderia, enfim, sanar os defeitos dos dois mandatos de Lula, seu antecessor, que a escolheu para herdar a cadeira de presidente. A petista havia sido vendida aos eleitores como uma gestora competente e intolerante com corruptos de toda espcie, cuja vassoura saneadora limparia o pas dos mprobos. 
     Na quinta-feira passada, 67 dias depois de ter sado vitoriosa da eleio presidencial mais disputada desde a redemocratizao do pas, com uma diferena de pouco mais de 3 milhes de votos na frente do senador tucano Acio Neves, Dilma escalou de novo a rampa do Planalto para receber a faixa verde-amarela. Mas os nimos eram diferentes, muito diferentes, dos de 2011. Em frente ao parlatrio, na Praa dos Trs Poderes, pouco mais de 10.000 pessoas ouviram Dilma, em cena de melanclica audincia, no avesso da extraordinria empolgao da primeira posse de Lula  e mesmo da segunda e da inaugural de Dilma. Em quatro anos, o pas que a presidente desenhou originalmente no  aquele que ela continuar a comandar a partir de 2015, at 2018. O Brasil que Dilma herdou da gestora exemplar que passara pelo Ministrio de Minas e Energia e pela chefia da Casa Civil de Lula pede uma ampla arrumao tanto na economia quanto do ponto de vista tico. 
     Uma maneira didtica para entender o que quatro anos fizeram com o governo de Dilma  cotejar o discurso da posse para o segundo mandato com o de 2011, evidentemente mais emocionado. Ao falar para o Congresso na primeira posse, ela citou uma nica vez a palavra Petrobras, e em um contexto esperanoso, o do pr-sal. Na semana passada, Petrobras apareceu nove vezes, sempre na defensiva, com acusaes a "predadores internos e inimigos externos", como se eles existissem, no velho truque de dizer que o  inferno so os outros. A corrupo tambm foi multiplicada na nova prosa dilmista. Apareceu uma solitria vez em 2011 e dez vezes agora (embora, evidentemente, ela no tenha dito  "petrolo"). Oposio, antes lembrada em uma oportunidade, agora sumiu, um indcio de que o dilogo anunciado  em outubro, logo depois da vitria, era  mesmo pura retrica. E convm lembrar que Lula tambm vai desaparecendo  despontou oito vezes e agora foi reduzido a duas tmidas lembranas. Ficou ntido, portanto, nos 4 minutos de preleo a deputados e senadores, que os prximos quatro anos sero mais difceis que os anteriores.  Petrobras, corrupo, oposio e Lula.  Os problemas so grandes. As solues existem, mas dependero muito da vontade de Dilma de aplic-las.  
     Na economia, o primeiro passo foi  dado no bom caminho, com a nomeao de Joaquim Levy, que a presidente buscou no Bradesco, um profundo conhecedor da mquina pblica (veja reportagem a partir da pgina 44), certeza de racionalidade e sensatez. Do casamento do poder de Dilma com o saber de Levy, a economia brasileira pode atravessar com galhardia o tormentoso 2015. Se a dupla se desentender, o Brasil perder. 
     A boa escolha de Joaquim Levy, tecnicamente adequada e politicamente corajosa, ao enfrentar grupos mais radicais do PT, no se reproduziu em parte decisiva das outras escolhas ministeriais, eivadas de fisiologismo  fisiologismo que, quase sempre, fez Dilma tropear no primeiro mandato. Para tentar garantir a governabilidade, os votos de que precisa dentro do Congresso, Dilma novamente cedeu, e fatiou a Esplanada de maneira generosa entre as siglas aliadas sem levar em conta a vida pregressa de muitos dos novos integrantes do primeiro escalo. Nem mesmo a memria de escndalos que atormentaram o governo petista nos ltimos anos foi suficiente para demov-la de certas escolhas. 
     No Ministrio dos Transportes, por exemplo, a presidente viu eclodir em 2011 a onda de denncias de corrupo que a levou a realizar a chamada "faxina tica", durante a qual demitiu seis de seus ministros por envolvimento em diferentes esquemas de malversao de dinheiro pblico. Na ocasio, uma reportagem de VEJA revelou um azeitado esquema de corrupo montado na pasta pelo Partido Republicano (PR), uma das siglas da base aliada. Licitaes de obras em rodovias e ferrovias estavam sendo fraudadas em favor de empreiteiras que, em troca, pagavam propina de at 4% do valor dos contratos para abastecer o caixa do PR. O ento ministro, Alfredo Nascimento (AM), acabou mandado embora. Com o tempo, o mpeto sanitrio de Dilma fez gua. A mesma turma complicada do PR foi, aos poucos, recuperando espao no ministrio. E vai seguir por l no segundo governo da presidente. 
     O novo titular dos Transportes, o vereador paulistano Antonio Carlos Rodrigues, foi uma escolha pessoal de Valdemar Costa Neto, condenado no mensalo, que continua mandando no partido. Suplente da petista Marta Suplicy, Rodrigues recentemente passou uma temporada no Senado. Nesse mesmo perodo, Costa Neto ameaou levar o PR para a oposio. Coube a Rodrigues o papel de pombo-correio entre o mensaleiro e o governo. Advogado por formao, Rodrigues chegou a receber uma procurao formal de Costa Neto para poder visit-lo na cadeia sempre que precisasse. A contrapartida para que o PR permanecesse na base de apoio a Dilma era a retomada do poder no Ministrio dos Transportes. Pedido feito, pedido atendido  e agora, ironicamente,  o prprio Rodrigues quem assume a pasta. No  o nico caso de interesses cruzados entre a caneta de Dilma e a turma onipresente nos escndalos. Helder Barbalho, cuja experincia no executivo se resumia  cadeira de prefeito de um municpio paraense, ser ministro da Pesca. Por indicao de seu pai, o notrio senador Jader Barbalho, que ganhou prestgio no Planalto por seu engajamento na campanha de Dilma  reeleio. 
     Para o Ministrio do Esporte, Dilma nomeou George Hilton, um pastor da Igreja Universal do Reino de Deus que, durante o perodo em que foi deputado, nunca apresentou uma nica proposta relacionada a qualquer atividade esportiva. Sua nomeao, criticada por atletas e entidades da rea, se deu porque a presidente precisava contemplar o PRB, outro partido da base de apoio. Em tempo: em sua passagem mais conhecida pelo noticirio, Hilton fora flagrado pela polcia a bordo de um avio com onze malas pelas quais estavam distribudos 600.000 reais em dinheiro vivo. E por a vai a lista de integrantes do primeiro escalo do novo governo (veja os quadros ao longo desta reportagem). Os partidos listados como beneficirios do petrolo  PT, PMDB e PP, os principais  esto todos l, firmes e fortes. 
     No entanto, nem mesmo fazendo tantas concesses Dilma pode esperar um futuro tranquilo no Congresso Nacional, onde 2 + 2 nem sempre d 4. A base governista est repleta de descontentes, que discretamente j prometem criar embaraos para o novo governo. A presidente coleciona inimigos at mesmo dentro de seu prprio partido, o PT. Faces petistas, entre elas a do ex-presidente Lula, se queixam por ter perdido poder na montagem do novo ministrio. Na escolha dos chamados ministros palacianos, aqueles que despacham no Palcio do Planalto, Dilma expurgou petistas ligados a Lula. como Gilberto Carvalho, e ps no lugar companheiros mais prximos a ela que ao seu antecessor. O prprio Lula, que passou silenciosamente pela posse, tem reclamado das decises da presidente. Como se no bastasse, espera-se para este primeiro semestre a abertura de uma nova CPI, agora menos chapa-branca, para investigar o petrolo. Alm disso, devem chegar  Justia as primeiras acusaes contra deputados e senadores envolvidos no esquema. Uma crise poltica parece ser inevitvel  e o nico modo de atenu-la  ajustar a economia e recuperar a credibilidade perdida nos ltimos quatro anos. 

UM MUNDARU DE GENTE 
O governo Dilma bateu todos os recordes em nmero de ministros

Dilma (2015)
39 ministros
PT Partido dos Trabalhadores: 14
PMDB Partido do Movimento Democrtico Brasileiro: 6
PSD Partido Social Democrtico: 2
PROS Partido Republicano da Ordem Social: 1
PTB Partido Trabalhista Brasileiro: 1
Partido Progressista: 1
PR Partido da Repblica: 1
PCdoB Partido Comunista do Brasil: 1
PDT Partido Democrtico Trabalhista: 1
PRB10 Partido Republicano Brasileiro: 1 
Sem partido:10

DILMA (2011)
37 ministros
PT Partido dos Trabalhadores: 17
PMDB Partido do Movimento Democrtico Brasileiro: 6
PSB40 Partido Socialista Brasileiro: 2
Partido Progressista: 1
PR Partido da Repblica: 1
PCdoB Partido Comunista do Brasil: 1
PDT Partido Democrtico Trabalhista: 1
Sem partido: 8

Lula (2003)
32 ministros

Fernando Henrique Cardoso (1995)
27 ministros

Fernando Collor (1990)
15 ministros

OS FIADORES
A dupla escolhida pela presidente para reorganizar a economia e ajustar as contas pblicas sofre crticas do PT, mas agrada ao mercado.

JOAQUIM LEVY, Fazenda 
Ex-secretrio do Tesouro Nacional, era diretor do Bradesco. J avisou que para reorganizar a economia ser preciso adotar medidas duras. 

NELSON BARBOSA, Planejamento 
No primeiro mandato, foi secretrio executivo do Ministrio da Fazenda. Saiu por divergncias com Guido Mantega. Tem fama de austero.

OS COMPLICADOS
O primeiro escalo tem legtimos representantes da turma que se equilibra entre a poltica e os escndalos.
GEORGE HILTON, Esporte - Foi flagrado pela Polcia Federal num avio com 600.000 reais em dinheiro vivo, distribudos em onze malas. 
ANTONIO CARLOS RODRIGUES, Transportes -  do PR, partido que protagonizou um dos maiores escndalos do primeiro mandato de Dilma, e foi escolhido pelo mensaleiro Valdemar Costa Neto. 
HELDER BARBALHO, Pesca -  filho do notrio senador Jader Barbalho, um dos principais apoiadores de campanha de Dilma. Foi Jader quem o indicou para o ministrio. 
ELISEU PADILHA, Aviao Civil - Foi alvo de denncias de corrupo quando ocupou o Ministrio dos Transportes, no governo Fernando Henrique. 
MANOEL DIAS, Trabalho -  uma escolha pessoal de Carlos Lupi, presidente do PDT demitido da pasta no primeiro mandato de Dilma aps denncias de corrupo. 

A PERIFERIA LULISTA
Dilma escolheu para o ministrio petistas prximos ao ex-presidente Lula, mas fez questo de deix-los longe do ncleo central do poder.
JAQUES WAGNER, Defesa - Embora tenha estreitado os laos com Dilma,  historicamente ligado a Lula. Tem pouca afinidade com a rea militar. 
RICARDO BERZOINI, Comunicaes - O PT quer que ele tire do papel a chamada regulao da mdia, mas o projeto petista no tem o aval da presidente. 

O NCLEO DILMISTA
Um grupo de ministros para chamar de seu: na montagem da equipe, a presidente reservou alguns postos a auxiliares de sua extrema confiana.
ALOIZIO MERCADANTE, Casa Civil - Petista histrico, nunca caiu nas graas de Lula. Ganhou espao no governo no primeiro mandato de Dilma e tem sido elogiado pela presidente. 
MIGUEL ROSSETTO, Secretaria-Geral - Integra uma faco petista diferente daquela que sempre predominou no governo desde o primeiro mandato de Lula. 
PEPE VARGAS, Relaes Institucionais - Foi uma escolha pessoal da presidente, a despeito dos protestos dos companheiros petistas. 
CARLOS GABAS, Previdncia -  ligado ao comando do partido, mas se aproximou muito de Dilma nos ltimos anos. Virou amigo pessoal da presidente. 


3#2 2015 MORRO ACIMA
No poderia haver pior momento para, ao mesmo tempo, ajustar e manter em funcionamento as engrenagens da economia. O Brasil, porm, no tem alternativa. Vamos enfrentar um ano difcil, mas, felizmente, agora o caminho  correto.
ANA LUIZA DALTRO E BIANCA ALVARENGA

     Desde a redemocratizao de 1985, a duras penas, sucessivas administraes federais implantaram mecanismos que, em resumo, se somaram para tirar dos governantes a possibilidade de produzir grandes desastres na economia. O pice dessa caminhada se deu com Fernando Henrique Cardoso, no Ministrio da Fazenda no governo de Itamar Franco e, depois, por oito anos na Presidncia da Repblica. FHC entregou a Lula uma gesto de posse do instrumental legal e gerencial suficiente para manter a economia brasileira no rumo correto. Lula cuidou de, no comentrio sbio de um ex-ministro de seu governo, "no desmontar o relgio do vov, por no saber como remont-lo". A receita lgica a ser seguida pela presidente Dilma Rousseff ao receber a faixa das mos de Lula, em 2011, era consolidar os avanos das administraes anteriores. Mas Dilma achou por bem no primeiro mandato interromper a srie histrica de governos comprometidos com a estabilidade econmica. Deu errado. Agora reempossada, a presidente tenta recuperar o tempo perdido. Com Joaquim Levy na Fazenda, ela dispe de um economista especializado em pr ordem nas finanas pblicas, fundamento desprezado nos ltimos quatro anos. "Os primeiros passos desta caminhada passam por um ajuste nas contas pblicas", reconheceu Dilma no discurso de posse para o segundo mandato. Desde que Levy consiga fazer seu trabalho sem boicotes nem intrigas palacianas, o prognstico  bom. Se antes a chance de dar certo era zero, agora pelo menos a possibilidade de erro  muito menor. 
     Joaquim Levy tem como tarefa mais urgente reverter a falta de confiana dos investidores nos rumos do Brasil e tudo de ruim que isso acarretou: a diminuio dos projetos e das ambies dos empresrios e o consequente arrefecimento do crescimento. O PIB ficou estagnado em 2014, e as vendas do comrcio no fim de ano foram as piores em uma dcada. O segundo quadrinio de Dilma comea sem o ambiente de euforia de outrora. Pelo contrrio. A previso do Banco Central (BC) para o avano do PIB em 2015  um magrrimo 0,2%, um nmero desalentador e inferior ao aumento populacional. Diz Gustavo Franco, ex-presidente do BC e scio da Rio Bravo Investimentos: "A sensao  que voltamos aos poucos ao ponto de partida. A hiperinflao ainda no est de volta, mas o fracasso econmico  evidente. E ele foi inteiramente produzido pelo governo". Com Joaquim Levy, tudo indica, pelo menos vai ser desativada a usina de fracassos autoproduzidos pelo governo. Os obstculos de outra origem j so muitos. O ministro dever executar um programa de ajustes para reequilibrar a economia que poder ser doloroso a curto prazo, mas que ser capaz, se bem-sucedido, de restabelecer a confiana, voltando a atrair os investimentos de longo prazo. Com um plano de aes coerentes e sensatas, o governo poder deixar de ser um problema e instilar a perspectiva de um ano mais luminoso. O custo dos ajustes ser um preo tolervel a ser pago para recolocar o Brasil em sua rota original. "A gente tem de ter a coragem de fazer o que for necessrio para conseguir isso", reiterou Levy durante a posse, na quinta-feira passada, sobre os objetivos de retomar o crescimento e gerar empregos. 
     Os prximos meses no sero fceis porque se espera, para 2015, um ano de ajustes. A nova equipe econmica precisar combater com mais nfase a inflao e ter de apertar o cinto de seus gastos. "Vamos ter de pagar vrios pecados de uma s vez", diz o economista e consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC. "Consertar o estrago dos ltimos quatro anos exigir trabalho." Dilma 2.0 tem muito a corrigir de Dilma 1.0. Tambm no aparece no radar de 2015 um aumento expressivo dos investimentos. Alguns projetos devero ser afetados pelo escndalo do petrolo, que envolve as maiores empreiteiras brasileiras: 23 delas foram suspensas temporariamente de licitaes da Petrobras pela suspeita de envolvimento no caso. As exportaes sero impactadas pela desvalorizao de alguns dos produtos mais vendidos pelo Brasil, especialmente o minrio de ferro e a soja. 
     Mas  preciso evitar o derrotismo. Cada notcia boa precisa ser capitalizada a favor do Brasil. A espetacular recuperao dos Estados Unidos deve ser festejada. A maior economia do planeta tem crescido em ritmo acima das previses mais otimistas, prenncio de cenrio internacional mais favorvel. Quando os Estados Unidos crescem, consomem com maior apetite bens produzidos na China, que, por sua vez, tambm toma impulso. Com o eixo sino-americano girando com vigor, torna-se mais provvel um cenrio de demanda crescente para as exportaes brasileiras. Demanda aquecida puxa para cima o preo da soja e do minrio de ferro, diminuindo a presso sobre o cmbio e, por meio de um mecanismo conhecido dos economistas, ajudando no controle da inflao. 
     A seguir, VEJA avalia o estado dos cinco principais motores da economia brasileira e como eles podem reagir para ajudar na travessia de 2015. 

CONTAS PBLICAS 
     A desacelerao do crescimento fez com que Dilma Rousseff se escorasse no aumento ininterrupto dos gastos pblicos e na reduo seletiva de tributos para sustentar minimamente a atividade econmica. As famlias e os setores mais dependentes do governo foram os menos afetados pela retrao. Tal frmula, obviamente, no pode durar para sempre, porque as medidas perdem eficcia com o tempo e o potencial de crescimento a longo prazo tambm  afetado. Na indstria automotiva, por exemplo, a produo caiu 16% no ano passado at novembro, apesar do imposto mais baixo. 
     Sustentar um governo a cada ano mais inchado requer absorver tambm, a cada ano, mais recursos do setor privado, seja por meio de impostos, seja pelo aumento do endividamento do Estado. Nos anos Dilma, o total da dvida pblica, como proporo da economia, subiu de 53% para 63% do produto interno bruto (PIB).  uma dinmica perversa: quanto maior a dvida, maiores os juros cobrados para refinanci-la e maior o custo do dinheiro, o que derruba os investimentos privados e o crescimento. Alm disso, a conta dos juros reduz o volume de recursos pblicos destinados ao investimento no futuro do pas, ou seja, para ampliar os gastos em educao, saneamento, infraestrutura e sade. 
     Da ser motivo de esperana a nomeao de Joaquim Levy como ministro da Fazenda. Trata-se de um especialista na administrao das finanas pblicas, com resultados j comprovados em sua passagem pela Secretaria da Fazenda do Rio de Janeiro. O novo ministro deixou claro que no tolerar manobras contbeis e far com que o governo caiba dentro do PIB, deixando de abocanhar uma parcela ainda mais gorda da economia. Os primeiros sinais so auspiciosos: depois de anos de promessas no cumpridas, o governo anunciou, na vspera da virada de ano, regras menos permissivas para a concesso de alguns benefcios sociais, como seguro-desemprego, penso por morte, auxlio-doena e seguro-pescador. H outras decises relevantes j anunciadas. Diminuir, por exemplo, a mamata com recursos do BNDES. O banco estatal de fomento a investimentos cortar o volume de subsdios, um custo coberto nos ltimos anos pelo Tesouro por meio do aumento da dvida federal. O rigor nas finanas pblicas, embora difcil de ser executado, traz a recuperao da confiana de investidores. Outro benefcio  que o pas afastar o risco de ser rebaixado pelas agncias de classificao de crdito, o que representaria a perda do chamado grau de investimento. Se isso ocorresse, o Brasil abriria mo de bilhes de dlares de fundos que s podem aplicar recursos em destinos que ostentem esse atestado de credibilidade. 


INVESTIMENTOS 
     "Temos muitos motivos para preservar e defender a Petrobras de predadores internos e de seus inimigos externos", disse Dilma no discurso de posse (veja reportagem na pg. 36), vendo inimigos onde eles inexistem, como se a retrica tivesse o poder de solucionar os buracos econmicos criados em sua prpria gesto e os escndalos de corrupo. Recuperar a maior empresa brasileira e sua capacidade de tornar realidade os projetos de expanso ser imprescindvel para ampliar os investimentos. Um primeiro passo ser pr fim  venda subsidiada de combustveis, que custou 60 bilhes de reais aos cofres da estatal desde 2011. Ser essencial tambm agir com celeridade para apurar as denncias e punir os envolvidos no escndalo do petrolo, para que tanto a Petrobras como empreiteiras que cuidam de algumas das principais obras do pas possam retomar os projetos de investimento. Investigadas no escndalo, algumas empresas do setor de infraestrutura j encontram dificuldades financeiras. A OAS est se desfazendo de bens e demitindo funcionrios. A empresa tem 1,4 bilho de reais em dvidas para vencer a curto prazo e apenas 1,6 bilho de reais em caixa. A Iesa e a Galvo Engenharia tiveram contratos com a estatal cancelados. O advogado de um grande escritrio especializado nessa rea explica que as empreiteiras mdias tero muita dificuldade para renegociar dvidas ou contrair novas. "Os bancos possuem listas negras prprias e no querem se envolver com as empresas investigadas, seja por medo de tomar um calote, seja por no querer se relacionar ao escndalo", diz.  uma pssima notcia para o pas, porque a m qualidade da infraestrutura  uma das principais amarras ao crescimento: ela reduz a produtividade da indstria e do comrcio, encarece produtos e diminui a competitividade das exportaes. Fazer deslanchar o programa de concesso de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos, tornando-os atraentes para a iniciativa privada, servir como um impulso para a economia. 
     Fora da infraestrutura, as empresas mantm a cautela ao tratar de projetos de expanso. Segundo uma pesquisa da Fundao Getulio Vargas, s 41% das companhias consultadas esperam ampliar os investimentos em 2015, o menor ndice desde 2009, na poca da crise financeira global. "As pessoas percebem que a economia no est progredindo e que dificilmente o Brasil voltar a crescer, a mdio prazo, no ritmo visto entre 2007 e 2010", diz Aloisio Campelo, coordenador da pesquisa. O setor otimista  o de bens de consumo, o mais favorecido pela poltica econmica dos ltimos anos. "Mas diversas atividades esto com alto nvel de ociosidade, o que reduz a perspectiva de investimentos", afirma Campelo. Para outros ramos, entretanto,  em momentos como o atual que deve ser feita a expanso para colher os resultados no futuro. A queda no preo dos aluguis comerciais e no custo de construo de galpes, por exemplo, favorece o investimento de grupos de varejo, como o Po de Acar, que prev contratar 20.000 funcionrios neste ano. 

CONSUMO 
     O ano passado no foi fcil para o comrcio, como ficou evidente nas vendas fracas de fim de ano. O faturamento dos shoppings no perodo de Natal avanou apenas 3% em relao a 2013, segundo a Associao Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop). Foi o pior resultado desde 2003, culpa da combinao perversa de aumento dos juros, inflao em alta e valorizao do dlar, que encareceu produtos importados. Ao longo do ano, outros fatores prejudicaram as vendas. "Houve muitos dias de comrcio fechado por causa da Copa e muita incerteza no perodo que antecedeu as eleies", diz Nabil Sahyoun, presidente da Alshop. Uma prova do esfriamento do setor foi a inaugurao de shoppings com at metade de suas lojas desocupadas. Segundo Luiz Rabi, economista da Serasa Experian, empresa especializada em anlise de crdito, "o consumidor foi cauteloso em 2014 e se preocupou em reduzir o seu endividamento, pagando dvidas j assumidas".  um comportamento que pode se aprofundar neste ano com o aumento das taxas de juros nos bancos e no comrcio e a sombra do desemprego. 
     Mas os lojistas esperam um cenrio um pouco mais positivo em 2015 se o governo tornar realidade uma poltica econmica mais equilibrada para conter a inflao, de acordo com Sahyoun. O aumento dos preos  preocupao real dos consumidores, como atestou uma pesquisa da Confederao Nacional da Indstria (CNI) em parceria com o Ibope. Os entrevistados disseram que o controle da inflao tem de ser o segundo maior compromisso de Dilma neste ano, atrs apenas da melhora do servio de sade. H dois anos, o combate ao aumento de preos no constava entre as prioridades. So lembretes, para o governo, de que a estabilidade monetria  fundamental. 

EXPORTAES 
     Da fase em que a demanda superava a oferta, o mundo passou para um perodo de excesso na produo de matrias-primas, as chamadas commodities. O preo do minrio de ferro, insumo bsico para produzir o ao utilizado na construo civil e na produo de veculos, caiu 50% no ano passado. M notcia para a Vale, uma das maiores produtoras do mundo, e tambm para a balana comercial brasileira. As exportaes de minrio alcanaram estimados 340 milhes de toneladas em 2014, um ligeiro aumento em relao ao ano anterior. Ainda assim, com a queda nos preos, o total faturado caiu 6 bilhes de dlares. A queda nas cotaes reflete, alm de estoques mundiais elevados, a desacelerao chinesa. O avano espetacular de 10% ao ano ficou para trs, mas a China continua a crescer a um ritmo invejvel, superior a 7% ao ano, e sobre um PIB muitas vezes mais alto do que era h dez anos. Por isso, passada a fase de reequilbrio, as exportaes brasileiras devero voltar a aumentar. Na rea agrcola, o apetite asitico continua avassalador. "Ainda no sentimos o efeito da desacelerao chinesa", afirma Anderson Galvo, diretor da consultoria Cleres, especializada no agronegcio. O resultado  que a soja passou o minrio como o principal produto exportado. 
     Para a indstria, o dlar valorizado dever favorecer as vendas no mercado internacional. A Fiat, por exemplo, anunciou a retomada das exportaes para o Mxico. Antes, com o real fortalecido em relao ao dlar, os carros brasileiros chegavam com um preo muito elevado ao mercado externo, sobretudo em comparao com mercadorias asiticas. A recuperao dos Estados Unidos e de outras naes ricas j comea a beneficiar a venda de produtos industriais sofisticados, como os jatos da Embraer  as exportaes de avies para o mercado americano subiram 84% em 2014. Na outra ponta, o embarque de produtos para a Argentina e a Venezuela, dois dos maiores clientes na Amrica Latina, continuar fraco, por causa da crise que ambas enfrentam. Um incentivo ao comrcio vir se a poltica externa brasileira deixar de ser guiada pelo afago a pases subdesenvolvidos e priorizar economias ricas. 

ECONOMIA MUNDIAL 
     Este ano deve ser marcado pela recuperao dos pases mais ricos, que superaro definitivamente a crise iniciada em 2008. Os nmeros recentes dos EUA revelaram uma retomada forte do consumo e dos investimentos: o crescimento chegou a 5% no terceiro trimestre do ano passado, o maior em uma dcada. Na Europa, o desalento ainda  grande, mas pases que adotaram as reformas necessrias crescem em um ritmo mais acelerado. Outra notcia positiva foi a queda no preo do petrleo. De acordo com o Fundo Monetrio Internacional (FMI), o crescimento mundial poder ser at 0,7 ponto porcentual mais alto em 2015 graas ao custo mais baixo da energia. A China passa por uma desacelerao suave, e no ocorreu por l a crise que muitos analistas chegaram a prever. As notcias negativas partem dos pases que optaram por desperdiar os dias de bonana com a exportao de matrias-primas, acima de todos a Venezuela, mas tambm a Argentina e agora a Rssia. Uma surpresa positiva, contudo, poder vir da Argentina. Nas eleies de outubro, espera-se a vitria de um candidato comprometido com a racionalidade econmica, dando fim ao reinado populista dos Kirchner. 

CONCLUSO 
     Nunca  tarde para tentar recolocar a economia nos eixos. Dilma Rousseff ter, no segundo mandato, a chance de faz-lo. So tantas as potencialidades do Brasil e to fortes nossas vantagens competitivas em relao a outros mercados que basta o governo deixar de ser o problema e se tornar parte das solues para que os investidores readquiram a confiana necessria para fazer aqui suas apostas de longo prazo. Esse cenrio interessa a cada um dos brasileiros, pois a gerao de bons empregos, o aumento da qualidade de vida para todas as camadas sociais e o bem-estar geral so resultado de uma economia funcional, eficiente, competitiva e com destaque internacional. A isso se chama crescimento sustentvel. Que possamos chegar ao fim de 2015 comemorando as vitrias que recolocaram o Brasil no rumo do crescimento sustentvel. 

A INFLAO BATE  PORTA DO BC
     O ano comea com incmodas fontes de presso sobre a inflao. Reajustes anunciados nos ltimos dias de 2014 - e h tempos represados -, alm de outros j esperados nas tarifas de energia e de gua, nos bilhetes do transporte pblico e no preo dos combustveis e dos carros em decorrncia da recomposio de tributos, podem resultar em uma inflao de 1% neste ms de janeiro, de acordo com estimativas de economistas. O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, j declarou que um dos objetivos do aumento dos juros  evitar que os reajustes se espalhem pela economia. 
     S a elevao das tarifas de energia eltrica dever responder por um quarto do ndice mensal. A partir deste ano, as contas de luz ficam sujeitas ao efeito das chamadas bandeiras tarifrias (verde, amarela ou vermelha), que refletem o custo de gerao de energia no pas. Elas indicaro mensalmente se haver necessidade de repasse ao consumidor de custos adicionais com o acionamento, por exemplo, de usinas termeltricas, mais caras.  o que acontece agora por causa dos baixos nveis dos reservatrios nas principais usinas hidreltricas das regies Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Com a atual bandeira vermelha (reservatrios baixos e trmicas a todo o vapor), em uma conta de 100 reais, haver um acrscimo de 6 reais. 
     O custo de vida tambm sofrer o impacto do transporte pblico, cujas tarifas estavam congeladas, em muitas capitais, desde a onda de protestos de junho de 2013. Em Belo Horizonte, por exemplo, o reajuste foi de 8,8% no preo da passagem de nibus mais cara, que passou de 2,85 para 3,10 reais. Em So Paulo, cidade onde as manifestaes tiveram incio, o reajuste anunciado  de 16,7%: tanto a passagem de nibus como a de metr e a de trens metropolitanos (CPTM) sobem de 3 para 3,50 reais a partir desta tera-feira (dia 6). 


3#3 CARREIRAS PROMISSORAS
Em anos difceis como este que acaba de comear, as empresas tendem a buscar profissionais que saibam gerar ganho de eficincia e definir novas estratgias.
BIANCA ALVARENGA

     A preocupao com o baixo crescimento da economia chegou ao mercado de trabalho no ano passado. Foram criadas 940.000 vagas com carteira assinada de janeiro a novembro, um nmero ainda expressivo, mas que representou uma queda de 40% em relao ao mesmo perodo de 2013. Na indstria, que paga salrios mais altos do que o comrcio, o saldo foi de apenas 8000 postos de trabalho. A expectativa  que agora, em 2015, o emprego seja atingido com mais fora pela estagnao da atividade. Mas, apesar da perspectiva negativa, algumas carreiras apresentam um horizonte promissor.  o que revela um estudo elaborado pela consultoria de recursos humanos Michael Page. Foram selecionados onze cargos com alta demanda por mo de obra j a partir deste ano. So posies de mdia e alta remunerao, que exigem boa formao acadmica e experincia profissional. 
     A cadeia de petrleo e gs natural e a indstria de bens de consumo, como a de eletrnicos, so dois setores em que a demanda por profissionais continuar aquecida. "So segmentos que apostam em uma recuperao da economia a mdio prazo", diz Leonardo de Souza, diretor executivo da Michael Page. Alm disso, o Brasil tem uma carncia de longa data de profissionais com formao tcnica de qualidade, vetor da demanda constante nesses setores. Apesar do escndalo do petrolo, a Petrobras tenta preservar os investimentos para no comprometer a expanso da produo do pr-sal. No lado do consumo, a expectativa da indstria  que a determinao da nova equipe econmica de combate firme  inflao resgate a confiana e o poder de compra dos brasileiros a partir do segundo semestre. Neste ano, em especial, alguns cargos que tradicionalmente j so valorizados pelas companhias devem ficar ainda mais requisitados.  o caso do gerente de planejamento tributrio, responsvel pela estratgia de gesto fiscal e pagamento de tributos de uma  companhia. Suas decises podem significar uma economia de milhes de reais em impostos. "Dado o ambiente econmico adverso, as empresas procuraro enxugar custos e aumentar a produtividade para superar um futuro ano de ajustes. A palavra de ordem  otimizao", diz Souza. 
     Tambm so promissores cargos ligados  cincia de dados, em especial ao big data e aos dispositivos mveis, como celulares e tablets. Os novos profissionais da rea de tecnologia ganham relevncia pela capacidade de aprofundar a anlise de informaes e pela criao de estratgias dentro de empresas. A tendncia  que,  medida que esse mercado se desenvolva no Brasil, aumentem as oportunidades nos prximos anos. Em momentos de incerteza econmica, buscar solues para aumentar a produtividade  uma escolha certeira para sobreviver e prosperar: nesse sentido, as empresas brasileiras esto fazendo o dever de casa. 

AS PROFISSES MAIS VALORIZADAS EM 2015

Gerente de embarcaes
O QUE FAZ: Trabalha nos navios de produo e transporte de petrleo
FORMAO: Oficial de nutica ou de mquinas, ou engenharia mecnica
SALRIO MENSAL: 25.000 a 30.000 reais

Controller
O QUE FAZ: Administra os setores contbil e fiscal de uma empresa
FORMAO: Cincias contbeis, administrao ou economia
SALRIO MENSAL: 18.000 a 25.000 reais

Gerente de planejamento tributrio
O QUE FAZ: Coordena a gesto fiscal e o planejamento tributrio de uma companhia
FORMAO: Cncias contbeis e direito
SALRIO MENSAL: 18.000 a 25.000 reais

Gerente de produo
O QUE FAZ: Aprimora a produtividade de uma indstria
FORMAO: Engenharia de produo
SALRIO MENSAL: 15.000 a 25.000 reais

Gerente de desenvolvimento de negcios
O QUE FAZ: Elabora novos projetos dentro de uma empresa
FORMAO: Engenharia ou administrao
SALRIO MENSAL: 15.000 a 25.000 reais

Gerente de obras industriais
O QUE FAZ: Planeja as obras em polos industriais
FORMAO: Engenharia civil
SALRIO MENSAL: 15.000 a 20.000 reais

Engenheiro de instalao (lay engineer)
O QUE FAZ: Coordena a instalao de linhas que interligam plataformas a poos de petrleo
FORMAO: Engenharia mecnica, eltrica, eletrnica ou naval
SALRIO MENSAL: 12.000 a 18.000 reais

Cientista de dados (data cientista)
O QUE FAZ: Trabalha com as plataformas de big data para analisar tendncias de mercado
FORMAO: Matemtica, estatstica ou engenharia da computao
SALRIO MENSAL: 12.000 a 18.000 reais

Gerente de logstica
O QUE FAZ: Organiza o funcionamento do transporte e o estoque de uma empresa
FORMAO: Engenharia de produo
SALRIO MENSAL: 10.000 a 18.000 reais

Arquiteto corporativo
O QUE FAZ: Analisa e padroniza a tecnologia dos diferentes setores de uma empresa
FORMAO: reas ligadas  tecnologia
SALRIO MENSAL: 10.000 a 16.000 reais

Desenvolvedor mobile
O QUE FAZ: Desenvolve aplicaes para sistemas mveis (smartphone e tablet)
FORMAO: reas ligadas  tecnologia; experincia em desenvolvimento de plataformas de programao
SALRIO MENSAL: 5.000 a 9.000 reais


